Quem sou eu

Logroño, La Rioja, Spain
Bacharel e Mestre em Biologia pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho". Doutorando em Enologia pela Universidad de La Rioja (Espanha), com especialidade em Microbiologia

26 setembro, 2011

Vindimas na Espanha e o aquecimento global.



Segundo reportagem do jornal español “El Correo”, as consequências até então desconhecidas e menosprezadas do aquecimento global já começam a gerar efeitos sobre as atividades vitivinícolas. Por exemplo, na zona de La Mancha a vindima começou este ano em agosto (algo muito atípico) e em Cantabria já começa a haver produção vitícola onde antes sequer se imaginava.

Na tradicional La Rioja, em certas zonas a colheita do ano passado já foi antecipada e este ano houve já uma antecipação de até 10 dias sobre a referência do ano passado. Dado adicional curioso é que já começaram com a colheita das variedades tintas, quando antes o normal era iniciar pelas brancas. A região conhecida como “Rioja Alta” sempre necessitou praticar coupage com uvas de outra região para aumentar o grau alcoólico de seus vinhos; agora, no entanto, suas próprias uvas já chegam à vinícola com um grau bastante elevado.
Outro dado curioso é que muitos produtores espanhóis e outros europeus já começam a plantar videiras em altitudes mais elevadas.

Dados oficiais da D.O.Q. Rioja revelam que até o ano 2000 o grau alcoólico de seus vinhos situava-se entre 12 e 12,5 e agora já se encontra entre 13,5 e 14 graus. Não há dúvidas que todos os dados e esse panorama revelam uma maduração precoce e acelerada das uvas, originando caldos com alto conteúdo de açúcares mas ainda com uma maduração incompleta dos parâmetros de aroma e cor. O pH dos vinhos também é maior e assim não têm a mesma evolução de envelhecimento e ainda dão margem a contaminações microbianas. Essas desviaçoes podem ser corregidas na vinícola, mas não o grau alcoólico que é consequência direta da temperatura à qual a videira está submetida durante seu ciclo vegetativo.

(Fonte: Ortega, C. Toma de temperatura al Rioja. El Correo, 26 set 2011. <http://www.elcorreo.com/alava/v/20110926/rioja/toma-temperatura-rioja-20110926.html>. Acesso em 26 set 2011.)

18 agosto, 2011


“- Nunca pensei que meu neto fosse ser padre – o Padre Quixote viu que havia lágrimas em seus olhos. Oh, não tenho nada contra o sacerdócio, Monsenhor. Como poderia? Temos um bom Papa, mas até para ele deve ser uma tortura beber todos os dias na missa um vinho tao ruim como aquele que compra o velho sacerdote de José.
- Não se prova  mais que uma gotinha – disse o Padre Quixote. Mal se sente o sabor. Não é pior que o vinho abonecado e com etiqueta de fantasia  que servem os restaurantes.
- Sim, tem razão, Monsenhor. Oh, todas as semanas vêm aqui uns sem-vergonhas para comprar meu vinho que logo misturam com outro e o chamam Rioja, e anunciam por todas as estradas da Espanha para enganar aos pobres estrangeiros que não  distinguem entre um bom vinho e um mau vinho.
- Como distingue aos sem-vergonhas dos honrados?
- Pela quantidade que querem comprar, e porque muitas vezes sequer pedem uma taça para prova-lo primeiro. Quem me dera se José houvesse casado e tido um filho. Comecei a ensinar-lhe coisas do vinhedo quando ele tinha apenas seis anos e agora sabe quase tanto como eu e sua vista é muito melhor que a minha. Em pouco tempo teria começado a ensinar a seu filho...
- Não pode encontrar um bom administrador, seu Diego? – perguntou o prefeito.
- É uma pergunta absurda, seu Sancho... a pergunta que faria um comunista.
- Eu sou comunista.
- Perdoe-me, não estou dizendo nada contra os comunistas no lugar onde devem estar, mas o lugar que lhes corresponde não é um vinhedo.  Os senhores, comunistas, poderiam colocar administradores, se quisessem, em todas as obras de cimento da Espanha. Poderiam nomear administradores para dirigir as obras de construção e suas empresas armamentistas, para cuidar do seu gás e da sua eletricidade, mas não se pode deixá-los encarregados de um vinhedo.
- Por que, seu Diego?
- Um vinhedo é algo vivo como uma flor ou um pássaro. Não foi feito pelo homem; este apenas o pode ajudar a viver... ou morrer – adicionou com uma melancolia tão profunda que seu rosto perdeu toda a expressão. Fechou a cara, como um homem que fecha um livro quando se dá conta que não quer lê-lo.”


(Grahan Greene. 1982. Monseñor Quijote. Ed. Argos Vergara, Barcelona, p 193.)

07 agosto, 2011

O vinho do Porto

Depois de algum tempo fora do ar, aproveito este domingo ensolarado e algo mais fresco para uma deixar uma nova postagem por aqui. Revigorado por nossa estadia no final do mês passado pela cidade do Porto e por um trechinho do Rio Douro,  aproveito a ocasião para  falar um pouco sobre o tão aclamado vinho do Porto.

O vinho do Porto entra na categoria de vinhos licorosos, mais especificamente como vinho fortificado. Isto porque sua característica intrínseca é a interrupção da fermentação pela adição de aguardente vínica. Este procedimento confere ao vinho sua elevada concentração em açúcares (que não puderam ser finalmente consumidos pelas leveduras) e elevado grau alcoólico (entre 19 e 20%).
Existem basicamente quatro tipos de vinho do Porto: o Branco, o Rosé o tinto Ruby e o tinto Tawny.
O estilo Ruby designa um vinho jovem robusto que mantém sua coloração tinta e os aromas tipicamente afrutados. Suas categorias, em ordem crescente de qualidade seriam o Ruby propriamente dito, o LBV (“Late Bottled Vintage”, ou seja, “safra engarrafada tardiamente”) e o Vintage. O Vintage e o LBV são vinhos que podem ainda envelhecer em garrafa por um tempo, já o Ruby deve ser consumido prontamente.

A categoria superior seria a dos Tawnies. Neste caso são vinhos que foram submetidos a envelhecimento em cascos ou tonéis de carvalho e já apresentam certa evolução de cor e de aromas (frutos secos e madeira). Para sua composição em garrafa passam pelo processo de “lotação”, onde diferentes lotes de vinhos com diferentes graduações alcoólicas e idades são mesclados para obtenção do produto final. Suas categorias em ordem crescente de qualidade são: Tawny, Tawny Reserva, Tawny com indicação de idade (10, 20, 30 e 40 anos) e Colheita. Vale lembrar que neste caso, como os vinhos passam por um processo oxidativo em durante sua evolução em madeira, tendem a apresentar matizes de coloração que vão desde o vermelho até uma coloração telha, parda, ou até âmbar. Paralelamente, os aromas também aumentam em complexidade.


Harmonização
Aperitivo: amêndoas torradas, salmão defumado, ameixas ou tâmaras secas harmonizam bem com um Porto Branco Seco. Outro bom aperitivo e uma forma moderna de apresentá-lo é com água tônica e algumas rodelas de limão, conhecido como Portonic. Já um Tawny pode ser uma ótima escolha para acompanhar um bom patê.

Refeição: Se as refeições forem leves (saladas, peixes grelhados como o salmão ou sopas à base de nata), o Porto Branco continua a ser uma excelente escolha. Se as entradas incluírem queijos fortes ou patês, os Tawnies 10 anos refrescados devem ser escolhidos, assim como se os frutos secos, como as nozes também fizerem parte do prato. Nos assados e bifes com molhos intensos com pimentas ou algumas especiarias, o LVB é opção ideal para o acompanhamento, equilibrando a intensidade de sabores.
Sobremesa: Estes vinhos também são excelentes para se apreciarem sozinhos. Para o café, um Tawny 20 anos ou mais velho é a harmonia perfeita. Estes vinhos de lote, como os 30 anos e mais de 40 anos, proporcionam por si sós experiências intensas quando servidos ligeiramente frescos (para que possa apreciar os aromas plenamente). Os Colheita, embora possam ser apreciados sós, podem combinar com as sobremesas recomendadas para os Tawnies, dependendo da sua idade.

 Além do mais, vale lembrar que há uma série de receitas de pratos e sobremesas usando as diferentes classes de vinho do Porto como complemento.








CONSERVAÇãO

Depois de aberta a garrafa de vinho do Porto, a sua conservação dependerá da categoria de vinho do Porto e do local onde será guardada. Os tempos abaixo sugeridos servem como orientação, pelo que não se pretende afirmar que o vinho se deteriora completamente, mas que vai havendo uma lenta evolução que leva à perda das características sensoriais originais.    
Vintage: 1 a 2 dias
LBV: 4 a 5 dias
Crusted: 4 a 5 dias
Ruby / Ruby Reserva: 8 a 10 dias
Tawny / Tawny Reserva:  3 a 4 semanas
Tawny com Indicação de Idade (10/20/30/40): Entre 1 a 4 meses (os mais novos menos tempo, os mais velhos mais tempo)
Brancos com indicação de idade (10/20/30/40): Entre 1 a 4 meses (os mais novos menos tempo, os mais velhos mais tempo)
Colheita: Entre 1 a 4 meses (os mais novos menos tempo, os mais velhos mais tempo)
Brancos “standard” dependente do estilo: Moderno  (frescos e frutados): 8/10 dias; Tradicionais (estilo oxidativo): 15/20 dias



Temperaturas de serviço

Porto Rosé: 4ºC
Porto Branco: 6-10ºC
Porto estilo Ruby: 12-16ºC
Porto estilo Tawny: 10-14ºC



Para mais informação visite: http://www.ivp.pt/index.asp?idioma=0








19 junho, 2011

VINEXPO 2011: Degustaçao de vinhos da Turquia.

Bordeaux, 19 de junho de 2011.

Esta tarde tivemos ocasião de participar de uma degustação de vinhos da Turquia no primeiro dia da Vinexpo, em Bordeaux.
Curiosamente a degustação nos surpreendeu bastante, e tivemos a ocasião de provar grandes vinhos. O primeiro a salientar é a coexistência de inúmeras variedades autóctonas com as de renome internacional. Como variedades locais brancas podemos citar a Emir, Narince, Sultaniye e Bornova Misketi, e como tintas, a Çalkarasi, Kalecik Karasi, Öküzgözü e Bogazkere. Além disto, dentro das variedades internacionais, estão produzindo a Sauvignon Blanc, Chardonnay, Merlot, C. Sauvignon e Shiraz.

A degustação, a cargo do sommelier Paolo Basso (Meilleur Sommelier d'Europe ASI 2010), começou com o vinho branco Vinkara (var. Narince, 2009). Vinho moderno e expressivo, apresentava uma coloração amarelo-palha com matizes dourados, muito brilhante. Intensidade alta em primeira olfação e exibindo elegante bouquet com predominância de frutas tropicais cítricas, kiwi, abacaxi e melão. Em nariz apresentava também um certo caráter defumado e algo mineral. Vinho untuoso em boca, com bom conteúdo glicérico e um pós-gosto prolongado e ainda devolvendo essas recordações a cítricos e frutas tropicais.

O segundo branco era um Vinolus (Chardonnay, 2009, 13,5%). Coloração amarela profunda com matizes dourados intensos; muito brilhante e vivo. Intensidade aromática alta com predominância de caráter defumado e a tabaco e cítricos em segundo plano. Apresentava em segunda olfação aromas a café, baunilha, caramelo, e abundânciade frutas tropicais, cítricas especialmente. Em boca mostrava-se um vinho muito intenso com um certo amargor persistente mas não verde, com algum toque mineral (provavelmente em função do solo vulcânico de origem), acidez bem equilibrada e álcool pronunciado; apresentava notas típicas cítricas (limão e pomelo) e minerais, além de um certo toque a coco, baunilha e torta de maçã. Enfim, um vinho bastante dinâmico, fresco e expressivo.

O terceiro vinho da sério foi um tinto Kavaklindere (var. Öküzgözü, 2008, 13,5%). Um vinho fácil de beber, com uma coloração rubi intensa e brilhante. Boa intensidade aromática, com notas florais e a frutas frescas como ameixa e cereja. Com a agitação da taça vinham à tona aromas a frutas negras maceradas e certo toque apimentado e a ervas frescas. Em boca apresentava um bom ataque e intensidade moderada, notas a geléia de frutas do bosque, acidez presente e certo calor alcoólico, taninos vigorosos e pronunciados. No pós-gosto nos retornava essas notas a especiarias mas com uma duração média, deixando a desejar um pouco neste ponto.

O quarto vinho foi um Vinolus tinto (var. Shiraz, 2009, 14,9%). Um vinho rico, expressivo e muito generoso, porém não demasiado sofisticado. Coloração densa, muito lacrimoso (indicando boa estrutura). Intensidade média-alta em primeira olfação, denotando frutas maceradas, pimenta negra, framboesas e um álcool potente. No paladar, um vinho impactante, com álcool persistente, bem balanceado e com boa acidez; muito expressivo. Taninos marcados no paladar médio, bem adstringentes, mas não chegando a verdes. Pós-gosto de intensidade média que, provavelmente com mais aeração, se expressaria mais.



A continuação nos deparamos com o Doluca Signium assemblage de Shiraz, Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc (2008, 14,8%). Vinho de coloração densa e brilhante e pequena auréola denotando tendência ao envelhecimento. Bouquet rico em especiarias, defumados, frutas negras em compota; álcool potente. Em boca apresentava um calor generoso, notas a melão, mas com uma adstringência um pouco verde. Intensidade alta no pós-gosto, indicando boa técnica de assemblage, pedindo mais aeração antes do serviço e com potencial de guarda de 6 a 7 anos.



O sexto vinho também tratava-se de um assemblage. Kayra (2006), apresentava 80¨% da variedade Öküzgözü, 6% Shiraz, 7% Bogaskere, 6% Petir Verdot. Boa intensidade colorante, vermelho-escuro. Intensidade média-alta em nariz, com aromas a compota, porém um pouco oxidado. Em boca apresentava um calor generoso, alcoólico, rico e bem estruturado; taninos potentes e com um certo caráter viril. Vinho com um caráter bastente rústico, ideal para acompanhar carnes de uma ocasião festiva.

Por último, e um dos mais curiosos no meu ponto de vista, provamos o Kayra Imperial Shiraz (95% Shiraz, 5% Petit Verdot; 2005, 13,5%). Curioso porque é um assemblage que será marcado pelas variedade mais destacada de cada ano, sempre diferente. Concretamente, este apresentava uma intensidade média-alta, maduro, com aromas de frutas do bosque, rico e expressivo também. Em boca era balanceado, com um ataque pronunciado e quente. Taninos potentes, não agressivos, e tendendo a abrir-se volumosamente no paladar. Boa acidez, expressivo e bem estruturado. Final longo, intenso, franco e afrutado. Um vinho elegante e potente, com potencial para harmonizaçoes com pratos de gastronomia mais estilizada.

27 maio, 2011

Vinho com quê?

Para entender a harmonia entre vinhos e deferentes pratos primeiramente é preciso ver o prato como um todo, e não como o produto original isoladamente (carne vermelha, peixe, massas, etc.). É preciso também prestar atenção ao modo de preparo do alimento, concentração de aromas (ervas, especiarias, etc.) para determinar o vinho que melhor o acompanhe.
Outro elemento importante a considerar é se o prato leva algum molho em sua composição. Por exemplo, um molho à base de manteiga batida casa bem com um vinho semi-seco e um molho mais condimentado com especiarias pediria um vinho branco fermentado em madeira.
A guarnição do prato tampouco deve ser desmerecida. Os legumes verdes necessitam ser acompanhados por vinhos levemente ácidos, os tubérculos por vinhos mais suaves e definitivamente não devem ser doces.
Devemos arriscar, mas é importante ter em mente que os sabores devem se complementar e não se anular. Por exemplo, um vinho licoroso não harmonizará nunca com uma sobremesa muito adocicada. Quanto às texturas, devem respeitar-se umas às outras: se um vinho tinto tem muita estrutura, muito corpo, complementará bem pratos mais consistentes e suntuosos, capazes de absorver todos os seus taninos.
Os espumantes brancos harmonizam bem com morangos, mas também com a culinária japonesa em geral.
Para dar algum exemplo mais concreto. Um branco da variedade Chardonnay casa muito bem com lagosta, massa com mariscos, peixe ao vapor. Um tinto Merlot acompanha honestamente massas suaves, carnes grelhadas e queijos não muito fortes. Já o Cabernet Sauvignon harmoniza perfeitamente com queijos semi-curados, carnes grelhadas ou ao forno e pratos à base de coelho. Os vinhos mais potentes, com envelhecimento em madeira, reservas ou gran reservas, são perfeitos para acompanhar um lombo apimentado, uma carne mais forte grelhada ou um queijo curado. Por exemplo, um tinto da variedade Malbec combina perfeitamente com um prato suntuoso, grelhados e carne de caça.
No mais, a questão é não prender-se extremamente a regras, creio eu. Arriscar e provar. Sem dúvida, devemos deixar de lado o conservadorismo europeu e provar harmonizações com a grande riqueza de pratos regionais. Quem disse que uma boa feijoada, um acarajé com vatapá, uma moqueca, um tutu de feijão, um prato à base de pequi, e por aí afora, não possam ser acompanhados de interessantes vinhos? Aliás, está aí o desafio. Creio que haja muito pouca ousadia e desmerecimento da nossa riquíssima culinária.

22 maio, 2011

Qual é o cheiro do vinho?








 Criei este tópico à parte para falar um pouco exclusivamente da parte aromática do vinho. Não pretendo entrar em detalhes técnicos, mas apenas passar alguma idéia a respeito da detecção de aromas que podemos realizar quando apreciamos um vinho.

A apreciação olfativa do vinho sempre precede a análise visual. Ao contrário do que muita gente pensa não devemos agitar a taça imediatamente, todo o contrário, a sensação que devemos tirar é com a taça em repouso. Ao introduzir o nariz na taça diretamente deveremos ser capazes de apreciar os aromas típicos da(s) variedade(s) – C. Sauvignon, Mertot, Pinot Noir, etc. – bem como tudo aquilo que diz respeito ao terroir – conjunto de características microclimáticas e edafológicas da zona, manejo e cultura vitivinícola. Esta primeira etapa é extremamente importante, pois nos permite dividir a informação aromática típica (aromas primários) daquela proveniente da fermentação e processos de envelhecimento pelos quais o vinho possa ter passado. Nesta primeira etapa, em geral, os aromas situam-se em florais, vegetais e frutais, e em alguns casos também minerais.
A seguinte etapa seria, então, agitar a taça vigorosamente para facilitar a liberação dos compostos aromáticos secundários e terciários. Esta segunda análise deve ser feita a partir de olfações intensas e breves. Os aromas secundários, por definição, são todos aqueles que se originam durante a ação de leveduras (fermentação alcoólica) e bactérias (“fermentação” maloláctica) e compreenderiam descritores como caramelo, creme, lácteos (leite, doce de leite, iogurte, queijo, manteiga, etc.), entre outros.
Finalmente quanto aos aromas terciários ou bouquet, seriam aromas percebidos naqueles vinhos que passaram por algum processo de contato com a madeira e também pelo seu tempo de amadurecimento na garrafa. Essa composição aromática geralmente vem marcada por descritores balsâmicos, de madeira, torrefatos (café, cacau), defumados, tabaco, couro, frutos secos, mel, entre outros. Também podemos encontrar diversos aromas frutais e florais mais complexos. Vale lembrar que é nesta etapa onde nos depararemos com uma maior complexidade aromática e que pode determinar o status e também o preço de um vinho.

Outro aspecto a levar em consideração é que essa apreciação não é estática. Ao abrirmos a garrafa, o vinho nos transmitirá certas impressões, mas com a aeração a bebida vai passando por um processo de micro-evolução onde mutará rapidamente. Em conclusão, o vinho que provarmos recém tirado da garrafa, não será o mesmo ao cabo de uma meia-hora. Outro fator importante e que também influenciará positiva ou negativamente é a temperatura, por isso é crucial o correto serviço do vinho assim como evitar que o mesmo se aqueça enquanto é saboreado.

27 abril, 2011

24 abril, 2011

A cor do vinho


Quando pensamos no aspecto visual do vinho devemos considerar alguns critérios que podem ajudar a nos orientar na hora da compra, num restaurante ou mesmo em casa ao “interpretar” nosso vinho.
Começarei pelos espumantes. No caso dos vinhos espumantes, sejam brancos ou rosados, o desprendimento de bolhas de gás é um aspecto que remete diretamente à qualidade do produto.  O bom espumante deve desprender bolhas muito pequenas, sempre unidas – formando uma espécie de colar de pérolas – e constantes; ou seja, o espumante que libera bolhas grandes e difusas e que em poucos minutos já se extinguem, não é de boa qualidade.
No caso dos vinhos brancos em geral, deve ser límpido e translúcido ao analisá-lo na taça, ou seja, não deve apresentar em hipótese algumas partículas em suspensão ou qualquer turvação em seu conteúdo. Quanto à coloração dos vinhos brancos, podemos encontrar uma gama diversa que vai desde amarelo-palha até tons de amarelo bastante intensos. Dentro desse panorama, podemos nos deparar com matizes acinzentados, esverdeados e, no outro extremo, dourados e até mesmo âmbar. Os matizes observam-se nesse arco que se delineia ao inclinarmos a taça contra um fundo branco e em boas condições de iluminação (sendo a luz do sol a referência adequada).
No caso dos vinhos rosados, sempre devemos esperar colorações vivas e brilhantes, posto que são vinhos que devem ser consumidos jovens e frescos, predominando as tonalidades rosáceas (salmão, framboesa, morango, etc.).
Quanto aos tintos, é onde encontramos mais complexidade. Sempre que nos deparamos com um tinto jovem, que não passou por envelhecimento em madeira, devemos previamente intuir colorações intensas e brilhantes, com tonalidades e matizes púrpura e violáceo. Já aqueles vinhos com mais tempo de envelhecimento e que passaram por um período de curtimento em madeira tendem a não mais apresentar tonalidades púrpuras e violáceas, mas sim vermelho cereja, tomate e matizes aproximando-se a uma coloração telha ou vermelho oxidado. Quando vai chegando ao máximo de maturação pode apresentar uma coloração vermelha não tão viva e matizes alaranjados.
Em conclusão, se compramos um vinho tinto jovem e nos deparamos com colorações decaídas, já devemos supor que passou por algum processo de oxidação por mal acondicionamento, por exemplo.
De qualquer modo, ficam aí as dicas. Espero que sirvam para melhorar o tato nas próximas compras e consumições.

18 abril, 2011

Passeando entre vinhos: Fenavinho 2011

Para quem quer se aventurar um pouco mais pelo mundo do vinho e de quebra dar um passeio, aí vai a dica. A partir do dia 29 de abril até o dia 08 de maio a FENAVINHO 2011 oferece a seus visitantes a oportunidade de adentrar-se um pouco mais no mundo do vinho, degustar o produto de diferentes vinícolas e ainda desfrutar de um ambiente festivo  e muito efusivo.


 
ONDE: Parque de Eventos de Bento Gonçalves (RS)

QUANDO: 29 de abril a 08 de maio



17 abril, 2011

Um vinho no restaurante. O quê escolher e como proceder?

Observo muito mito e muito medo na hora de tomar um vinho em algum restaurante. Muita gente imagina que há demasiadas regras por trás disto, mas em realidade precisamos perder esse medo e encarar isto como o pedido de um prato normal. A primeira coisa é a escolha de um vinho para acompanhar o almoço ou jantar e para isto, nada melhor que sermos honestos e, quando não temos a menor idéia, pedir ajuda ao sommelier ou ao garçom.
O seguinte passo é o correto serviço do vinho. Em um bom restaurante – e não falo aqui de estabelecimentos “cinco estrelas” – onde haja um mínimo de cuidado com o cliente, o vinho necessariamente será aberto aos olhos do cliente. Se já trouxeram a garrafa aberta apenas com a rolha posta, sinta-se com todo o direito de reclamar ou pedir que abram a garrafa na mesa. Digo isto porque infelizmente muitos lugares vendem “gato por lebre” e quando estamos pagando – e, diga-se de passagem, pagamos bem caro por vinho no Brasil – temos o direito de fazer certas exigências.
O bom garçom abrirá a garrafa e perguntará quem na mesa deseja provar o vinho. Antigamente havia muito preconceito neste simples ato, sendo que sem consultar o garçom dirigia-se diretamente ao homem do grupo. Hoje isto já deveria significar um ato abolido e qualquer um dos comensais pode se oferecer para provar e aprovar o serviço do vinho.
Como mostra de bom serviço e de respeito ao cliente o garçom deve mostrar o rótulo da garrafa escolhida para que se possa comprovar a marca e a safra, abrirá e oferecerá a rolha a quem desejar provar o vinho. Basta um simples exame visual e olfativo, apenas para constatar que o vinho não está alterado por mau acondicionamento, o que em muitos casos é detectável pela simples observação da rolha.
A seguir serve-se uma pequena quantidade de vinho para que se realize uma análise breve do vinho. Há muita gente que gosta de dar um toque de soberbia neste passo, fazer aerações intensas em boca e mostrar-se o grande entendido na matéria. Balela! A questão aqui é apenas provar o vinho para constatar que ele não tenha nenhuma alteração sensorial e que se encontra à temperatura correta. O garçom deveria esperar que essa pessoa desse o sinal de aprovação para então seguir servindo o restante da mesa.
Uma coisa importante, principalmente no caso dos tintos, é deixar que o vinho “respire” um pouco, ou seja, que ele entre em contato com o oxigênio para expressar tudo aquilo que poderá oferecer. Se tiver paciência, ponha um pouco de atenção e reparará como o mesmo vinho vai mudando em poucos minutos; prove-o ao início e lembre-se de ao final degustá-lo novamente. Possivelmente terá a impressão de que não bebeu o mesmo vinho.
Outra coisa que pode parecer demasiada pompa, é como seguramos a taça, mas não é. A taça de vinho deve ser sempre suspensa pela haste e não pelo bojo da mesma. Isto é essencial para que não aqueçamos o vinho ao transferir nossa temperatura corporal, assim o mantemos nas condições adequadas por mais tempo e podemos apreciá-lo sem interferências.



E é isto. A seguir a regra essencial é beber sabendo apreciar o vinho e, claro, a companhia que tivermos. 


Tim-tim!

14 abril, 2011

Que vinho comprar?

Já faz um tempo que familiares e amigos me pedem alguma indicação prática na hora de comprar um vinho, seja para o dia a dia, seja para alguma ocasião especial. A questão é comprar um vinho que seja minimamente honesto, ou seja, com características organolépticas corretas, sem alterações, e a preço acessível. Convenhamos, falar de grandes e místicos vinhos é como cultivar um amor platônico, e para tal propósito este não é o caso.
Por isto, vou listar algumas dicas práticas, regras e mitos na hora de escolher um bom vinho.
ü   
  • A primeira coisa é escolher um estabelecimento que demonstre um mínimo de preocupação com a correta armazenagem do produto.  Garrafas expostas à luz direta, à temperatura ambiente (o que acarreta oscilações de temperaturas constantes), armazenadas verticalmente e sem critério já são um claro indício de que podemos estar comprando “gato por lebre”. Pode parecer muito “bla-bla-bla”, mas a questão é que todos estes aspectos influem diretamente na cor, na estabilidade físico-química, na composição aromática e gustativa dos vinhos.
  • Tipo de vinho: Devemos buscar informação que nos diga se é um vinho jovem, envelhecido em madeira (e por quanto tempo), se é uma safra especial e selecionada e ainda se é um vinho varietal ou “assemblage”. Varietal é o vinho composto únicamente de uma variedade de uva (ex.: Merlot, Pinot noir, Cabernet sauvignon, Tannat, etc.) e neste caso encontraremos as características sensoriais típicas da variedade. No caso do “assemblage”, trata-se de um vinho composto por diferentes variedades e em diferentes proporções (ex.: Cabernet sauvignon + Merlot, Cabernet franc + Pinot noir, etc.); costumam ser vinhos com mais complexidade sensorial justamente por mesclar diferentes características provenientes de cada variedade de uva.
  • Variedade da uva: Este também é um aspecto essencial na hora de escolher um vinho para determinada refeição ou ocasião. No caso dos tintos existem variedades que caracteristicamente perfazem vinhos mais robustos, com coloração intensa, mais adstringência em boca e outros bastante mais delicados. Cito as alugmas variedades tintas: Cabernet sauvignon (vinhos com cor intensa e boa adstringência, aromas a groselha, café, pimentão verde e cassis); Merlot (aromas a frutas silvestres, cassis, eucalipto, tabaco); Pinot noir (originam vinhos com complexidade e muita delicadeza, mas a vinícola necessita dominá-la bem); Shyrah (aromas a violetas e frutas negras maduras).
No caso dos vinhos brancos, um varietal é sempre interessante, sendo as mais conhecidas a Chardonnay (vinhos frutados e com corpo), Sauvignon Blanc (aromas e sabores a frutos tropicais e toque floral), Riesling (vinhos secos, frutados, frescos e com aromas florais), entre outras 
  • Safra: É muito importante prestar atenção no ano de produção do vinho pois o fato de que o vinho quanto mais velho, melhor, é um mito. Vinhos brancos, via de regra, devem ser jovens, frescos, vibrantes e não ter mais de 2 anos – a não ser que seja o caso de brancos que passaram por madeira - e o mesmo deve ser aplicado aos rosados ou rosés. Quanto aos tintos jovens, que tampouco foram envelhecidos em madeira, devem ser de safras recentes, em geral também não devem superar os 2 anos; alguns vinhos mais robustos necessitam algum tempo mais de “descanso” na garrafa para que sejam mais apetecíveis e suaves ao paladar. Já os tintos que passaram por madeira ou aqueles considerados “reserva” têm mais potencial de envelhecimento e, de fato, melhoram com o tempo.
É necessário ter em mente que cada vinho tem sua infância e adolescência, necessitando algum tempo para “amadurecere”; também tem sua juventude, quando se encontra vivo e vibrante, porém ainda pode melhorar; passa por uma “fase adulta e madura” quando potencializa sua expressão e chega a seu ponto ótimo; e finalmente chega a seu momento “cenil”, quando já vai morrendo e perdendo pouco a pouco suas melhores características.
  • Considerando a realidade brasileira, devemos levar em consideração que a qualidade dos vinhos nacionais melhorou muitíssimo nos últimos anos. Os chilenos e argentinos chegam oferecendo bons produtos a bom preço, mas também há de tudo um pouco. A questão é que pelo incentivo fiscal, estes vinhos importados têm mais vantagens que os nacionais na hora de olhar o preço. De qualquer modo, os vinhos brasileiros, especialmente os brancos e espumantes, têm demonstrado características ímpares e merecem ao menos a nossa curiosidade.
  • Quanto ao preço, considero que na faixa de R$20,00 a R$30,00 podemos encontrar bons vinhos, que minimamente sejam honestos e corretos.
  • No mais, o principal é não ter medo de arriscar e provar. Uma dica interessante para quando desejemos dar um presente ou não errar na hora de oferecer algo aos amigos e familiares é registrar aqueles vinhos que nos deixaram melhores impressões, por exemplo, guardando o rótul, a rolha ou até mesmo ter um caderninho para poder anotar a marca, variedade(s) de uva(s) e safra.
  • Bom, finalmente deixo a dica de uma loja virtual no Brasil que vale a pena. Em www.vinhosevinos.com.br você poderá encontrar uma ampla gama, com preços de vinícola e descriçao das características de cada vinho.