Quem sou eu

Logroño, La Rioja, Spain
Bacharel e Mestre em Biologia pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho". Doutorando em Enologia pela Universidad de La Rioja (Espanha), com especialidade em Microbiologia

18 agosto, 2011


“- Nunca pensei que meu neto fosse ser padre – o Padre Quixote viu que havia lágrimas em seus olhos. Oh, não tenho nada contra o sacerdócio, Monsenhor. Como poderia? Temos um bom Papa, mas até para ele deve ser uma tortura beber todos os dias na missa um vinho tao ruim como aquele que compra o velho sacerdote de José.
- Não se prova  mais que uma gotinha – disse o Padre Quixote. Mal se sente o sabor. Não é pior que o vinho abonecado e com etiqueta de fantasia  que servem os restaurantes.
- Sim, tem razão, Monsenhor. Oh, todas as semanas vêm aqui uns sem-vergonhas para comprar meu vinho que logo misturam com outro e o chamam Rioja, e anunciam por todas as estradas da Espanha para enganar aos pobres estrangeiros que não  distinguem entre um bom vinho e um mau vinho.
- Como distingue aos sem-vergonhas dos honrados?
- Pela quantidade que querem comprar, e porque muitas vezes sequer pedem uma taça para prova-lo primeiro. Quem me dera se José houvesse casado e tido um filho. Comecei a ensinar-lhe coisas do vinhedo quando ele tinha apenas seis anos e agora sabe quase tanto como eu e sua vista é muito melhor que a minha. Em pouco tempo teria começado a ensinar a seu filho...
- Não pode encontrar um bom administrador, seu Diego? – perguntou o prefeito.
- É uma pergunta absurda, seu Sancho... a pergunta que faria um comunista.
- Eu sou comunista.
- Perdoe-me, não estou dizendo nada contra os comunistas no lugar onde devem estar, mas o lugar que lhes corresponde não é um vinhedo.  Os senhores, comunistas, poderiam colocar administradores, se quisessem, em todas as obras de cimento da Espanha. Poderiam nomear administradores para dirigir as obras de construção e suas empresas armamentistas, para cuidar do seu gás e da sua eletricidade, mas não se pode deixá-los encarregados de um vinhedo.
- Por que, seu Diego?
- Um vinhedo é algo vivo como uma flor ou um pássaro. Não foi feito pelo homem; este apenas o pode ajudar a viver... ou morrer – adicionou com uma melancolia tão profunda que seu rosto perdeu toda a expressão. Fechou a cara, como um homem que fecha um livro quando se dá conta que não quer lê-lo.”


(Grahan Greene. 1982. Monseñor Quijote. Ed. Argos Vergara, Barcelona, p 193.)